.... hoje estava mar chão...

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar
Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.
Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.
E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria
Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento
E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa
(Carlos Tê)

O eléctrico ainda passava rua acima.
O passeio era estreito e ao mesmo tempo imenso. As lojas mostravam as novidades nas montras sempre bem arranjadas.
A "Branca de Neve" tinha sempre a Branca de Neve e os sete anões vestidos a preceito para a Estação em que estávamos. No Natal também lá estava o Pai Natal para pedirmos os presentes. Na "Cunha" havia croissants e cheirava sempre a bolo acabado de fazer. As varinas passavam apressadas, de ancas bamboleantes, cesto à cabeça e pregão afinado. Muito cedo, pela manhã ainda nascente, passava a carreta do leite e o padeiro deixava pão fresquinho dentro do saco que as senhoras penduravam nas portas e varandas.
Ao domingo a rua ficava mais calma. Em tarde de Sol convidava a um passeio manso para ver as montras.
Elas com os catraios agarrados às saias. Eles de rádio de pilhas agarrado à orelha para ouvir as últimas da bola. E havia os namorados que passeavam as ruas sem as ver devidamente guardados pela irmã mais nova dela, ou o irmão, ou a prima. No Carnaval apareciam sempre "eles" vestidos d'"elas", com andar escangalhado em cima de desusados tacões, meias de seda enfeitadas de enormes pêlos, bigodes contornados de batom vermelho e carteira a preceito pendurada no braço.
Não era preciso sair de casa para sentir a vida da rua. Bastava a janela do primeiro andar.
Mas domingo para ser domingo tinha sempre hora de lanche especial.
Dois quarteirões abaixo, sentada nos enormes bancos corridos forrados de cabedal lavrado, tomava leite quente com canela enquanto os meus olhos passeavam encantados nos tectos e nas madeiras trabalhadas, e nos candeeiros e nos reflexos das luzes nos espelhos.
Domingo para ser domingo era dia de lanche no Majestic.



Centenária, e sempre sedutora.
Livraria Lello, no Porto






