Chovia. Era noite.
A Avenida dos Aliados oferecia uma paisagem inesperada. Estava vazia de gente!!! Pela chuva e pela hora.
Mesmo assim não era de arriscar sair do carro, tirar o tripé da bagageira, armar o tripé, tirar a máquina.. e fazer tudo com uma só mão, porque a outra teria de estar a segurar um protector guarda chuva!
Não. Muito antes de metade de tudo feito, de algum canto da Avenida uma sombra trataria de eu deixar de chamar meu o tripé, a máquina, sei lá!...
Parei o carro junto ao Passeio das Cardosas.
- Lindo! Este é o meu Porto.
Abri o vidro. A beirada da janela serviu de tripé inventado e fiz uns quantos bonecos.
Mas ele era o nevoeiro, ele era a chuva persistente miudinha molha tolos. Ele era mais o tripé inventado...
... o resultado foi o que se vê.

Já algumas vez foram à teia de um teatro?
Subir
Subir degraus estreitos e íngremes
Pretos.
Que se enrolam sobre si mesmos.
E chegar de onde se vê o mundo de forma inesperada.
Uma teia de fios. Cortinas. Focos de luz. Cabos. Roldanas.
Atilhos e sarilhos se algo não funciona como deve.
Espreito. Pela grade negra feita chão. E pelo varandim.
Cocurutos loiros, morenos e carecas movem-se com o à-vontade de quem não se sente espiado. Os pés parecem dar pontapés no ar quando caminham. E os braços lembram aranhiços aflitos a passear quando gesticulam mais expressivos.
Chega o som de vozes que não distingo.
Sento-me e sinto-me escondida à vista de todos.

Pé ante pé, a minúscula aranha passeava pelo braço achando que passava sem ninguém dar por nada.
...ou seria pata ente pata????


A névoa tomava conta da cidade.
Desde cedo o movimento em redor da igreja adivinhava um acontecimento menos habitual. Aproximava-se a hora do Concerto de Reis na Igreja da Trindade, mesmo na parte de traz da Câmara Municipal.
Coração do Porto.
Por entre luzes e altares, meninos e jovens e outros menos meninos e menos jovens iam fazer ouvir as suas vozes afinadas e os seus tocares.
Quando cheguei adivinhava-se já a igreja cheia de um público atento. Dei a volta em busca de estacionamento.
De vários carros vi sair gente bem vestida com cara de acontecimento importante: pais, avós, tios, primos... vinham todos.
No adro os arrumadores de carros já repousavam, sem mais moedas a cobrar: o espaço estava tomado.
Aproximei-me.
As vozes suaves das crianças ouviam-se.
Mas não foi nelas que a minha atenção se prendeu.
Prenderam-me o olhar as arcadas repletas de cobertores feitos camas abrigos, quartos à chuva e ao luar. E a gente que neles se abrigava e olhava o movimento como se fosse transparente aos olhos de quem passava e desviava o olhar..
Não, não foram as vozes que me prenderam a alma.
E também não tive coragem de desnudar quem repousava, ou nem por isso, com uma fotografia descarada...

Escolhi esta fotografia de entre as minhas fotografias para mostrar as flores azuis que atapetam os campos do Alentejo na Primavera.
Gosto delas.
Mas também gosto das papoilas vermelhas, dos malmequeres brancos e amarelos...
Gosto de flores do campo. E pronto!

É domingo.
Um dia tão bom como qualquer outro para começar um blog.
O cinzento do céu convida a ficar no conforto de casa, e o tempo frente ao computador fica incomparavelmente maior do que num domindo solheiro...
Veremos como me dou na descoberta da escrita e da publicação de uma "coisa" destas...