Está frio.
Não corre vento e sente-se o silêncio de um espaço despovoado.
É assim que gosto. Quando a noite cai e raros são os que se aventuram Falperra acima para sentir a magia do Sameiro.
Por entre os amigos que me acompanham não me sinto só.
Nem me sentiria só se só estivesse.

Há muito que não subia estes caminhos, mas voltar por eles é como se fosse voltar depois de ontem porque as pedras, as árvores e os caminhos têm o mesmo contorno e os mesmos cheiros.
Costumava pegar num livro e subir a encosta sem pressas.
Escolhia um penedo para me acoitar até o Sol descer no horizonte e lia horas a fio ouvindo chilrear e olhando as serras que amo.
Anos antes subia a correr para descer ainda mais depressa. Não têm conta as vezes que esfolei joelhos e cotovelos atrás de tudo e de nada mas sempre pelo prazer de fruir aquela terra.
Conheço ainda todas as pedras dos caminhos. E os cheiros.
Para jusante, o Douro. Resende. A Ermida.
Costumava sair no comboio na Ermida.
- Não olhes para a frente! As faúlhas entram nos olhos e magoam-te!
O comboio parava no meio do ranger do ferro das rodas nos carris e do fumo das máquinas. O cheiro era inconfundível e ainda o tenho gravado na memória, vivo. Saíam pessoas, malas, sacos e cestos que galgavam os quilómetros de caminho preciso para chegar a Tresouras. Não havia "carreiras", e carros de praça só mesmo em caso de muita precisão e marcados com dias de antecedência.
Calor? Frio? Chuva? Sol?
Não havia nada que diminuísse a alegria. Afinal, estava de férias!
A Norte, Montemuro orlada agora de moinhos de vento modernos que reluzem com a luz doce do nascer e do por do Sol. Energia limpa.
Já por lá andei, mas de carro quase sempre. Ainda quero andar muito mais.
Para a esquerda, Mesão Frio, a montante do Rio Teixeira que corre em fio de água no fundo do imenso vale que cavou.
E o Marão! A Teixeira. Mafómodes. Aqui sim, conheço. De hoje e de ontem.
Ia a Mesão Frio a pé, ao sábado. Descia ao moinho, passava ao lado de Loivos, e subia junto à cooperativa do vinho. Acaba aqui a Região Demarcada e no Outono as cores dos vinhedos e o aroma das uvas cortadas de fresco é inconfundível!!!
Na Teixeira comi o doce que lhe tomou o nome, acabado de sair do forno, famoso em qualquer feira mas raramente o original. Às vezes era preciso esperar que acabasse o tempo de cozedura. Nada complicado, porque as gentes daquelas bandas têm conversa que prende e as horas não se sentem.
Passando Mafómodes, com as suas leiras de um verde único, é só subir até às antenas e olhar o mundo! Lá do alto, do mais alto, o que é que se não vê???

... quem desce de Mesão Frio, e vira à esquerda em direcção à Rede, depara-se com o vale do Rio Douro. Majestoso.
Ao longo do dia as tonalidades dos montes variam... de azuis pouco antes do sol nascer.. oiro quando o Sol nascente acaricia as margens do rio... depois verde...
O rio, as encostas, as vinhas, as cores e os cheiros... as gentes... amo tudo.
Estão ali as minhas raízes.



Com as águas da "Ria" de Aveiro de permeio era possível ver as casas típicas da Costa Nova, com as suas riscas coloridas, mesmo ao fim do dia.
Hoje a paisagem continua a ser bela, mas as casas das riscas perdem-se no emaranhado urbano.

Há sempre uma reclamação...
.....no dia em que tirei a fotografia estava a tiritar de frio!!!!!
