Desde menina que me lembro de correr as ruas da "Baixa" em dias de Carnaval. Não havia nenhum desfile organizado, mas os foliões não faltavam.
Eram sobretudo matrafonas. Ou lindas vestimentas inventadas em trapos...
Homens travestidos de mulheres pendurados em chancas de saltos altos e pêlos a furar meias de vidro esburacadas com enormes bigodes em longas cabeleiras loiras desgrenhadas...
...e o mais que a imaginação pudesse inventar para um Carnaval trapalhão bem à moda do Porto!...
Hoje havia animação na Baixa, e a minha curiosidade não me deixou ficar em casa.
Na Avenida andavam bastantes, e a idade não foi impedimento para brincar...

| A última fala do Palhaço "Deixem-me ser eu por um instante, ao menos...! Ainda vale a pena! Deixem-me vir à cena Em primeiro lugar, a rir ou a chorar (a mesma coisa afinal...)! Deixem-me antes que morra, Demolir a masmorra que eu mesmo construí com lágrimas e sangue e, embora enxangue, ser só eu, tal e qual! Saúl Dias, Vislumbre (1979) |
Há quem diga que é cinzenta. Talvez. Se assim a quiserem ver....
Mas… como podem?
Será que já a correram ao raiar do dia, quando o cinza da noite dá lugar aos brancos e amarelos das paredes e aos vermelhos dos telhados?
É... como magia...

Manhã na rádio... 8h30, pouco mais...
- Recomenda-se cuidado ao atravessar a Ponte da Arrábida porque nessa zona ainda se faz sentir um denso nevoeiro.
Estava junto aos Jardins do Palácio de Cristal. Nevoeiro? Arrábida? Rio?
Chamam por mim!
Desci a Rua da Restauração e, num instante, estava à beira-rio. O Sol já raiava num imenso céu azul por entre o nevoeiro que se dissipava rápido.
Ao longe, a ponte começava a desenhar-se.
O muro servia de apoio a umas quantas canas de pesca. Outras, mais tardias, saiam das malas dos carros.
Fui passando entre elas e o fresco da manhã. E fotografando.
- Ó menina, hoije tá mêsmo lindo p´ás fetografias, num tá?
Estava mesmo.

Ver o Porto é sempre saber que regresso ao lar, e não o faço sem emoção.
... mas é muito mais saboroso depois de uma viagem calamitosa em aeroportos com filas e filas de espera, atrasos por cima de atrasos, malas abertas, identificações sucessivas, raios X, .....
Enfim!
Se viajarem, não passem mesmo por Londres!!!!!!

A madrugada tinge o rio de cores que me apaixonam.
É verdade que raras vezes que me delicio com elas. Culpa minha, claro! que levantar cedo custa!!!!!!!!!!!!
Ontem a filhota tinha um avião a apanhar às 6 da manhã. Nada como aproveitar!
O avião partiu, levando a cachopa rumo a terras italianas depois do aceno de mão, feliz...
...e eu parti rumo ao meu Douro...
Àquela hora o sereno das águas casa com a tranquilidade dos lugares.
Por entre o nevoeiro as pontes entrelaçam margens e reflectem sombras que aconchegam barcos ancorados.
E o cheiro... fresco. Cheira à maresia que o vale deixa vir até mim.
Já há pescadores nas margens. Poucos ainda. Trazem as canas e o farnel, e saboreiam.
De quando em quando passa um carro.
Sento-me no muro. E espero que o crepúsculo me traga o Sol.

O fim de tarde estava tranquilo. O céu tingiu de vermelho ao pôr-do-sol.
Ao passar a Ponte D.Luis, de metro, a paisagem era fantástica!

A noite estava bem quente e soprava uma brisa do lado do oceano. No céu, algumas nuvens. Nada especial.
Num repente o vento começou a soprar de sudoeste, muito forte. Quase ao mesmo tempo começaram a ver-se clarões ao longe. Minutos depois já a trovoada se abatia, forte, sobre a cidade!
Confesso que já tinha pensado fotografar muitas vezes uma trovoada. Por isto e por aquilo nunca tinha concretizado essa vontade.
Hoje, não resisti.



.... hoje estava mar chão...

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar
Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.
Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.
E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria
Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento
E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa
(Carlos Tê)

O eléctrico ainda passava rua acima.
O passeio era estreito e ao mesmo tempo imenso. As lojas mostravam as novidades nas montras sempre bem arranjadas.
A "Branca de Neve" tinha sempre a Branca de Neve e os sete anões vestidos a preceito para a Estação em que estávamos. No Natal também lá estava o Pai Natal para pedirmos os presentes. Na "Cunha" havia croissants e cheirava sempre a bolo acabado de fazer. As varinas passavam apressadas, de ancas bamboleantes, cesto à cabeça e pregão afinado. Muito cedo, pela manhã ainda nascente, passava a carreta do leite e o padeiro deixava pão fresquinho dentro do saco que as senhoras penduravam nas portas e varandas.
Ao domingo a rua ficava mais calma. Em tarde de Sol convidava a um passeio manso para ver as montras.
Elas com os catraios agarrados às saias. Eles de rádio de pilhas agarrado à orelha para ouvir as últimas da bola. E havia os namorados que passeavam as ruas sem as ver devidamente guardados pela irmã mais nova dela, ou o irmão, ou a prima. No Carnaval apareciam sempre "eles" vestidos d'"elas", com andar escangalhado em cima de desusados tacões, meias de seda enfeitadas de enormes pêlos, bigodes contornados de batom vermelho e carteira a preceito pendurada no braço.
Não era preciso sair de casa para sentir a vida da rua. Bastava a janela do primeiro andar.
Mas domingo para ser domingo tinha sempre hora de lanche especial.
Dois quarteirões abaixo, sentada nos enormes bancos corridos forrados de cabedal lavrado, tomava leite quente com canela enquanto os meus olhos passeavam encantados nos tectos e nas madeiras trabalhadas, e nos candeeiros e nos reflexos das luzes nos espelhos.
Domingo para ser domingo era dia de lanche no Majestic.



Centenária, e sempre sedutora.
Livraria Lello, no Porto







Todas as histórias têm um início.
A minha história começou há 49 anos atrás...
Não, não foi nesse dia que eu nasci. Foi nesse dia que os meus pais uniram as suas vidas, e nessa união geraram a minha vida.
Segundo consta, estava um dia frio de sol. Brilhante. Como hoje.

Porto, à luz de um entardecer...